5DeviantArt é o nome vazio mas com rima da nova coluna que será mantida aqui no CybeRarts. Proponho, através desta série de artigos, apresentar conjuntos de cinco Deviants proeminentes, discutindo suas técnicas e especulando motivos para que sejam assim tão únicos. Um filtro neutro, mostrando vários tipos de artes diferentes, com o objetivo de ajudá-lo, caro leitor, a encontrar trabalhos de qualidade bastante acima da média, possibilitando enfim uma vida mais satisfatória a todos nós, que amamos as coisas bem feitas. Ou não, no caso daqueles que se ressentem por não conseguir fazer igual.
Para quem ainda ousa não saber do que se trata, o Deviantart.com é uma comunidade online fundada no ano de 2000, com o intuito de juntar pintores, ilustradores, artistas digitais, fotógrafos, animadores, abstracionistas, designers e até mesmo escritores e cineastas, em um espaço para expor e discutir seus trabalhos. Para se ter idéia do porte atual da comunidade, após sete anos de existência, basta olhar os números: Já tem mais de 60.000 contas, recebe mais de 1.5 milhões de visitas e por volta de 50.000 atualizações diárias. O portal ainda oferece uma larga rede de produtos vendidos pelos seus próprios usuários, como impressões e quadros de vários tamanhos, se tornando assim um dos melhores veículos para que artistas independentes consigam alguma promoção e até rentabilidade para suas obras.
Além desta face mercadológica, o DeviantArt é, com certeza, a maior database para busca de referências modernas e releituras interessantes de todo tipo de arte. Através de sua estrutura fluída, consegue apresentar todo o material de uma forma bastante organizada, onde cada artista acaba levando a outros, e cada galeria de favoritos lhe apresenta uma série de outras infinitas galerias interessantes para serem exploradas.
Mas, mesmo com qualquer espécie de controle bem moderado de conteúdo, ainda é impossível se filtrar todo tipo de porcaria que se põe na web. Assim sendo, não é necessário muito esforço lógico para entender que uma coluna que aponta artistas proeminentes dentro deste porte é, definitivamente, uma boa pedida.
Então vamos que vamos!
Kai

Começamos, como era de se pressupor, com um url complicado, como boa parte dos apresentados na comunidade. Esse sujeito, porém, não é qualquer um. Kai é um dos três diretores de arte da Imaginary Friends Studios, e foi meu primeiro escolhido dentro os outros vários membros do grupo na comunidade. A IFS é uma empresa que presta soluções de artwork em geral para todo tipo de empresa de entretenimento, passando por revistas, livros e quadrinhos, e chegando até Games, Tv e cinema. O estúdio não é americano, japonês ou europeu, mas sim está instalado em Singapura e Jakarta, e, ainda assim tão no fim do mundo, presta serviços para EA, MTV, DC, Nokia, Intel, enfim, para vários nomes assim imponentes.
O trabalho de Kai é especificamente peculiar por causa de sua característica ’suja’ e desfocada e ainda assim extremamente informativa. Todas as suas imagens são carregadas de blur e camadas de visibilidade distintas, com traços descontinuados e linhas de movimento bem colocadas, porém sem pecar em momento algum na riqueza de expressões e elementos marcantes.
Basicamente usa tons cinzentos e aborda temas cyberpunks, porém perdido por seus trabalhos encontram-se algumas cores fortes e adições inesperadas, como flores e texturas plásticas, elementos que dão ainda mais firmeza aos seus contextos.
Vale ressaltar alguns de seus trabalhos com Mechas humanóides, a la EVAs; algumas musas de algo que gosto de chamar de clean-cyber (aquele futurismo com armaduras limpinhas, brancas e modeladas rentes ao corpo); seus veículos, entre naves, navios e tanques; e, principalmente, suas maravilhosas cenas de ação.
Em resumo, um exímio artista, que trabalha bem rapidamente (em média levando coisa de 3 horas para fazer cada trabalho desses), sem se prender a minúcias desnecessárias. Do jeito exato que o mercado espera que você seja!
Wen-M

Esse é um dos caras que provavelmente você já viu um trabalho de. Um desses talentosos super técnicos com influência óbvia de RPGs clássicos, que se afundou no exagero dos anime e video-games japoneses e agora cria os personagens mais épicos possíveis. Normalmente isso seria considerado piegas, e bem, é bem piegas sim, mas a riqueza do trabalho desse sujeito é realmente muito única. Vale ainda ressaltar que ele é um dos responsáveis pelo adorável projeto Anima: um audacioso grupo de artistas que teve a brilhante idéia de criar um mundo colaborativo, projetar alguns lançamentos para esse contexto, fazer um site épico e assim atrair investidores e especular se a aceitação destes possíveis produtos vai acontecer ou não, antes mesmo de sua existência efetiva. Para aqueles otimistas de marketing em games, fica a dica.
Voltando ao cara. Primeiramente vale a pena dar-lhe um crédito pela texturização das suas obras. Aquele tipo de trabalho que logo de cara te tira o ânimo de viver: “Nunca vou fazer isso!”- diz-se normalmente. Contudo tranqüilize-se, pois ele mesmo dá alguns tutoriais e prova que o grande trunfo está na prática e na descoberta de macetes que fazem do processo muito mais tragável.
Apesar de muitos dos personagens dele terem a mesma expressão e porte físico, aquele perfil asiático de personagem esbelto, de cabelos lisos, coloridos e sinuosos, é indiscutível que ele tenha conseguido criar uma grande variedade de modelos com estes, inclusive com alguns monstros e divindades bem bacanas.
Essa variedade vai a um patamar maior quanto nos referimos as armas, armaduras e roupas criadas por ele. Este é o trunfo real para diferenciá-lo da grande maioria dos artistas que fazem o mesmo tipo de trabalho. Muitas e muitas e muitas curvas, pontas, cruzes, cintos e asas, bainhas meio humanóides, releituras de armas tradicionais, estampas e cortes interessantes, enfim, elementos e elementos para que nenhum outro character designer no futuro reclame de que é impossível criar boas soluções artísticas com elementos batidos.
Kolaboy

Antes de mais nada vale a pena dizer que Kolaboy, provavelmente, é doente da cabeça. Como todo abstracionista com estilo. No caso o estilo aqui é extremamente de mal gosto, se considerado o gosto popular, mas é exatamente esse o objetivo. Ele, ou ela, tende a uma uma visão bastante deprê da existência, e isso é claro, mesmo eu não tendo nem iniciado o curso de psicologia. A destruição, a desconstrução, decomposição, estas estão por toda a parte em suas obras. Basicamente um emaranhado de idéias ero guro, e até meio fetichistas, organizadas de forma dadaísta.
É interessante notar que todos os personagens são, ao menos, bonitos. Quando não anomalias genéticas. A ambientação, por sua vez, me faz aproximar o inferno pagão e o céu católico em um ambiente só, neutro, talvez o meio termo sombrio dos dois. O plano das idéias mal resolvido quem sabe. Muitas vezes lembra os cenários de surrealistas clássicos, como Bosh ou o próprio Dalí, mas Kolaboy tem um perfil muito pessoal, ingênuo, menos carregado de pesares. Ainda explora elementos religiosos e grotescos de maneira totalmente livre, sem medo e receios, o que até um bocado perturbante a uma primeira vista.
Falar de Kolaboy é bastante difícil, me faltam alguns recursos lingüísticos para tal. Digo apenas que é um dos artistas que mais me marcaram nos últimos tempos. Aquele que aprecia o estilo encontrará na sua galeria algo a mais, algo que comprove que as possibilidades de renovação artística são inesgotáveis, até mesmo nessa nossa geração.
Klar

Talvez para muitos o trabalho deste artista não apresente nenhuma peculiaridade destacável. Seu traço fincado no mangá pode parecer pouco inovador, sua quase nula preocupação em criar ambientes ou contextos complexos, mostrar milhares de técnicas ou texturas distintas… Mas não, não procure essas coisas na galeria dele. O trunfo real deste aqui está no conceito de personagens que criou e a abordagem que faz destes. Ele explora algumas raças próprias, bem peculiares e marcantes, mas não é só isso, os seus trabalhos são carregados de uma leveza, de um descompromisso e de uma sexualidade ingênua, que o torna único dentro este miolo de artistas que cria com influência do traço japonês.
Primeiramente deve-se falar de alguns personagens específicos, que estão em vários dos seus trabalhos. Eles não tem histórias específicas, narradas por palavras, mas, depois de algumas poucas imagens entende-se perfeitamente o tipo de relação que tem entre si. A moça sereia masoquista. A criança bode curiosa. A mulher raposa guerreira. O rapaz unicórnio espontâneo. Enfim, as expressões usadas realmente relatam muito bem as personalidades e situações deles, desde os sorrisos provocadores e as risadas, até os olhares apaixonados de devoção, estes suprimem toneladas de enredos bobos por quatro ou cinco imagens, que ainda fazem o trabalho de maneira muito mais sensitiva.
O fundo sempre chapado, os tons pastéis e a pequena gama de variações das cores são ainda extremamente agradáveis para os olhos, não o tornando de maneira algum um artista preguiçoso, mas sim um designer bem capacidade para aproveitar os vazios. Entre vários pequenos elementos destacáveis ainda vou ressaltar o belo trabalho que faz com os pêlos nos personagens e o extraordinário caimento das roupas nos modelos. De resto, dêem uma conferida e entendam por si sós.
lithiumpicnic

Um desses fotógrafos com acesso as modelos, maquiagens, cenários, estúdios e indumentárias mais maneiros do mundo todo. Obviamente seu trabalho como fotógrafo é impecável, mas o destaque acaba sendo totalmente desviado para as coisas que fotografa. Lilthiumpicinic não parece um fotomanipulador, mas sim, como já citado, um cara que tem toda uma equipe impecável para dar suporte na montagem das suas obras.
Ele retrata em geral teenagers branquelas, gostosas, tatuadas, provocantes, pseudo-góticas, cabelos coloridos… SuicideGirls em suma. Inclusive, ao que tudo aparenta, presta serviços diretos ao site de pin-ups, tendo fotografado várias das modelos famosas por lá. Uma tarefa extremamente desgraçada, com total certeza.
Sobre as fotos vale ressaltar o contraste sempre muito alto e bem explorado, a força das cores, os cabelos MUITO bem arranjados, a indumentária sempre marcante e com pegadas futuristas. É um artista que, exatamente ao contrário de Kolaboy, pode ter seu valor expressado em algumas poucas palavras: Sortudo filha da puta!
Excepcionais os trabalhos, mas senti falta de uma variação de arte, você apresentou mais traços de cultura oriental do que ocidental…
Proposta para a próxima coluna aceita então! =D